As dores escondidas na empresa familiar – Por Aleteia Lopes

Especialista em gestão de empresas familiares

*Coluna por Aletéia Lopes, 27/06/2022

É muito comum que um membro da família empresária, ao sofrer com alguma situação – dentro do lar ou relacionado aos negócios – venha a somatizar isso tudo no corpo. Ocorrem casos de enxaqueca, dores de cabeça súbitas, gastrites, pressão alta e isso pode ser em razão de algum tipo de estresse que a pessoa está sofrendo dentro do trabalho, da empresa familiar, e não consegue externar para a família que não está feliz, que não era aquilo que queria, que está frustrado ou que está se sentindo desconfortável com alguma situação. Enfim… Esse membro da família não tem espaço ou coragem de dizer o que está sentindo e por isso, o corpo fala por ele.

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Essa pessoa começa a adoecer, busca tratamento e faz uma bateria de exames, mas nada é especificamente diagnosticado. Em muitos casos, esse é o ponto em que se começa a entender que o problema, muitas vezes, não está relacionado ao físico e sim, ao emocional.

Ainda assim, existem dificuldades para a pessoa relacionar, ou até mesmo reconhecer, essa é uma doença somatizada a problemas que está enfrentando dentro da empresa familiar. Muitas vezes, quem está sofrendo com a doença, não fala sobre o assunto ou sequer sinaliza. Dessa forma, continua adoecendo e a dificuldade em concluir o diagnóstico continua.

Em diversos casos, quando faço entrevistas para iniciar um projeto de governança familiar, alguns familiares tomam coragem para falar sobre algumas coisas que lhes fazem mal dentro de suas funções e como isso exerce pressão sobre eles. Então, à medida que vão confessando essas dores, eu começo a entender esse grande quebra-cabeça, onde o adoecimento físico pode estar sendo gerado por uma dor emocional, seja por essa contenção de falar o que ele realmente sente ou por ter medo de represálias.

Entre os herdeiros mais jovens, são frequentes os casos de depressão, porque existe o conflito intergeracional, a diferença gritante de mentalidades ocasionada pela distância entre as idades, o que dificulta a convivência entre um fundador, seus filhos ou até mesmo, seus netos.

Já vi muitas vezes, herdeiros sujos de graxa e deitados embaixo de caminhões ou escondidos atrás de um balcão de atendimento, não porque querem, mas sim, porque o pai havia passado pela graxa, assim como o avô e o bisavô. Por isso, todos achavam que os mais jovens também precisavam fazer da mesma forma – querendo ou não.

A questão é que a sociedade mudou. O perfil das novas gerações possui muito mais acesso à informação, se atualizam com mais facilidade e o fato de não conseguirem corresponder à expectativa dos antecessores, à idealização já preestabelecida do caminho que deve seguir dentro dos negócios da família, pode gerar um adoecimento emocional do herdeiro, por falta de aderência e compreensão do modelo tradicional de gestão da empresa da sua família.

Nem tudo se encaixa dentro daquilo que os pais idealizam para os filhos. Às vezes, um ou dois filhos conseguem se encaixar, mas pode haver um ou outros dois que são diferentes em formatos, funções e significados.

Os contextos em que o diálogo não tem espaço devido às diferenças intergeracionais podem gerar problemas e se tornar um tanto hostis. Mas podem ser ainda agravados pelas relações afetivas doentias.

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do ENB.

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