A inovação mais desafiadora: O fim do dinheiro físico? – por Machidovel Trigueiro Filho

*Coluna Semanal – Por Machidovel Trigueiro Filho – 04/06/21

 

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PARTE I

Segundo notícia da semana passada (24 de maio de 2021) do Banco Central, o Brasil poderá ter uma moeda digital emitida pelo próprio BACEN, como uma extensão da moeda física. Em nota, a instituição disse que “tem promovido discussões internas e com seus pares internacionais visando ao eventual desenvolvimento” da moeda. Segundo o BC, a moeda deve “acompanhar o dinamismo da evolução tecnológica da economia brasileira”. Também foi explicado que a moeda digital brasileira será diferente das criptomoedas. “Os criptoativos, como o Bitcoin, não detém as características de uma moeda mas sim de um ativo. A opinião do Banco Central sobre criptoativos continua a mesma: esses são ativos arriscados, não regulados pelo Banco Central, e devem ser tratados com cautela pelo público”. Por fim, o BACEN acrescentou que a moeda será garantida pelo Banco Central e a instituição financeira vai apenas guardar o dinheiro para o cliente que optar pela nova modalidade. Isso é o fim do dinheiro físico?

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Há várias décadas importantes estudiosos no mundo preveem o fim do dinheiro físico. Com a pandemia, essas previsões se intensificaram ultimamente, inclusive no Brasil. Mas quando isso ocorrerá de fato? Desde meados do século passado (década de 1950), economistas defendiam a ideia de que não haveria mais papel-moeda até o fim daquele século (anos 2000). Ou seja, para eles, todas as transações seriam feitas através de um cartão plástico. Naquela época não havia internet, portanto não se pensava em dinheiro digital.

Estamos em meados de 2021! Outro mundo. E agora? Há um ano o novo coronavírus impôs medidas de distanciamento social e acelerou a necessidade das pessoas de terem soluções cada vez mais remotas para os recebimentos/pagamentos. Quem pode, evita hoje tocar em dinheiro, ou mesmo ir a uma agência bancária. Assim, enfim, estamos caminhando para um novo mundo com dinheiro totalmente digital?

Houve nessa década uma grande evolução nesse tema, cartão de crédito, pagamento instantâneo (PIX no Brasil), transferência e QR Code, etc, ou seja, existem hoje algumas importantes formas de efetuar diversas transações financeiras sem a necessidade de tocar em cédulas e moedas físicas. Mas será que é tão simples assim falar que teremos em breve um futuro só de dinheiro digital? Não tenho dúvidas que o mundo é digital. Que o dinheiro também. O ponto é quando ocorrerá essa mudança de chave, qual o “timining” disso, diante de algumas barreiras ainda existentes. Para responder essa pergunta, é preciso lembrar antes de um dado muito importante: um em cada quatro brasileiros não têm acesso à internet. Em recente artigo que publiquei, defendi que urge a democratização da internet para os mais distantes rincões do nosso Ceará, ou mesmo do Brasil. Quando defendo democratização, falo de internet gratuita para todos e qualquer ponto do planeta.

Para os leitores aqui terem uma dimensão, no Brasil de 2021, há cerca de 46 milhões de pessoas off-line, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, que foi divulgada em meados do ano passado. Em áreas rurais, o índice de brasileiros sem internet chega a 53,5%. Ou seja, são pessoas sem acesso até a uma educação digital mínima, outra tendência irreversível. Portanto, para boa parte dessas pessoas, meios físicos de pagamento não são só uma opção. São uma necessidade. Há lugares no Brasil e no mundo em que o pagamento exclusivamente digital está muito longe de ser uma realidade.

Países com contextos muito diferentes do nosso (como a Dinamarca e a Suécia) hoje já permitem que lojas recusem pagamentos em dinheiro físico. Mas essa discussão também já chegou por aqui, embora não tenha ido pra frente: em 2016, não sei se os leitores lembram, mas uma ideia legislativa propunha o fim do papel-moeda no Brasil.

Nesse cenário, contudo, a pandemia agilizou o processo de digitalização de pagamentos em três anos, segundo dados do Data Nubank. No Brasil, com a necessidade do distanciamento social, as pessoas aumentaram o uso de meios digitais para fazer transações – as compras online no cartão, por exemplo, chegaram a 45% em abril de 2020 e esse ano de 2021 esse número chegou a 55%, patamares que só era esperado para 2025. Isso sem falar na chegada do Pix, esse novo meio de pagamentos instantâneos do Banco Central também vem crescendo com a rapidez da luz. O ponto é que todas essas inovações dependem de internet.

Pode parecer contraditório, mas, ainda que os pagamentos digitais venham aumentando, a demanda por papel-moeda também cresceu durante a pandemia. Tanto que em julho do ano passado, o Banco Central comunicou a criação da nota de R$ 200. Uma das justificativas citadas foi o processo de entesouramento que o Brasil começou a passar – em outras palavras, pessoas acumulando mais dinheiro físico em casa.

Todo ano, o BC faz uma estimativa de quanto dinheiro físico precisa estar disponível para a população. A expectativa para esse tempo de pandemia era que o pico de dinheiro em circulação fosse de 301 bilhões de reais em dezembro último. Só que já em abril, no começo da pandemia, o pico foi de 342 bilhões de reais, muito acima do esperado. Até o final do ano passado já tínhamos 400 bilhões de dinheiro físico em casa, segundo os números do Bacen. Isso é um pouco contraditório, em tempos de inovação. Mas há outras variáveis envolvidas, em tempos de crise sanitária, como foi assim na história, em tempos de outras pandemias. Ou seja, há uma explicação, qual seja, em momentos de incerteza, as pessoas ainda se voltam para as reservas de dinheiro, que conhecem melhor e confiam. Ou seja: dinheiro físico ainda importa bastante e pode demorar mais a acabar que as previsões mais pessimistas. Não obstante, não há nenhuma dúvida que o Brasil e o mundo caminham sim em uma direção mais digital. Com o passar dos tempos, contudo, as definições de novas tecnologias também mudam. Segundo um artigo da professora de Harvard Shelle Santana, “estamos caminhando para um mundo com cada vez menos dinheiro físico. Mas não com ele totalmente eliminado”.

Acelerar a digitalização dos meios de pagamento tem várias vantagens, como a diminuição de custos de produção, a praticidade e a documentação das transações.

Mas garantir que esse processo aconteça sem que uma parcela da sociedade seja excluída do mundo financeiro é fundamental. Não adiantará evoluir com parcela da população fora do mercado, ratificando o velho modelo de desigualdade de oportunidades, no meu sentir. Em suma, ainda é pouco provável – pelo menos em um futuro previsível – que o dinheiro físico esteja com os dias contados.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Economic News Brasil.

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