Setor de turismo acredita em recuperação apenas a partir de 2021, aponta estudo nacional

Para especialistas, atividade turística deve se concentrar nos trajetos de curta distância quando houver retomada

Setor de turismo acredita em recuperação apenas a partir de 2021, aponta estudo nacional
Foto: André Filgueira
Um relatório produzido pela Rede Brasileira de Observatórios de Turismo (RBOT) em parceria com o Observatório de Turismo (Obstur/PR) da Universidade Federal do Paraná (UFPR) mostra que as empresas de pequeno e médio porte do setor de turismo são as mais atingidas pela crise, tendo fluxo de caixa suficiente apenas para os próximos dois meses. O estudo “Sondagem empresarial dos impactos da Covid-19 no setor de turismo do Brasil” ouviu cerca de 5 mil empresários do setor em todo Brasil. Mais da metade (51%) acredita que a recuperação financeira só deve ocorrer em 2021 – 12% responderam que o faturamento deve melhorar apenas depois de 2021 e outros 3% disseram que não haverá recuperação do próprio negócio próprio.
 
Apesar do movimento de reabertura gradual da atividade econômica, a retomada da atividade turística deve se concentrar nos trajetos de curta distância. É o que explica a professora Juliana Medaglia, coordenadora executiva do Obstur/PR. “Qualquer viagem neste momento gera insegurança sanitária. Então as empresas precisam estar atentas à tendência do turismo local quando houver a retomada, porque provavelmente as pessoas vão escolher destinos próximos, onde se sentem mais seguras”, analisa.
 
A professora do Departamento de Turismo da UFPR também recomenda cautela para o setor, que deve seguir rigorosos protocolos de saúde. “As empresas devem comunicar aos clientes quais as ações de mitigação e de biossegurança que estão sendo adotadas, de forma conjunta com protocolos de saúde do estado ou cidade”, conclui.
 
Segundo os pesquisadores, o levantamento feito pela RBOT é apenas o primeiro retrato da crise no setor. A sondagem deve ser replicada em breve, para medir a evolução do cenário. Com base na comparação dos dados obtidos, novas pesquisas podem surgir para interagir com o mercado e avaliar as principais demandas.
 
O professor Osiris Marques, pesquisador do Observatório de Turismo da Universidade Federal Fluminense (UFF), reforça a importância da pesquisa na recuperação do setor. “O mais importante nesse momento é que a gente tome decisões a partir de dados e informações confiáveis, que sirvam como fonte para a tomada de decisão dos gestores”, alerta.
 
A sondagem sobre a Covid-19 foi o primeiro ensaio da rede de observatórios a produzir informação de forma colaborativa. Cada observatório contribuiu com uma base de dados regionais como ponto de partida para uma coleta amplificada através da internet. O Obstur/PR ficou responsável por agrupar estes dados e ajustar as metodologias de pesquisa para obter um único formulário, que pudesse ser compartilhado com todo o país.
 
De forma online, foram 4921 respostas, com participação de vários setores ligados ao turismo. “Isso facilitou a visualização e comparação dos dados entre as regiões. A vantagem que a UFPR trouxe foi a facilidade de usar métodos de pesquisa e o manejo de dados mais avançado”, explica Carlos Eduardo Silveira, professor do Departamento de Turismo da UFPR e membro do Obstur/PR.
 
Medidas para enfrentar a crise
 
Além do Obstur/PR, observatórios de 14 estados do Brasil que também fazem parte da Rede contribuíram para a finalização do relatório. A pesquisa contou com a participação de empresários dos setores de alimentação, hospedagem, agências e operadoras de turismo, associações, prefeituras e eventos.
 
Entre os dados obtidos, está a variação dos preços de bens e serviços durante a intensificação das medidas de isolamento social, que comprometeram o funcionamento da economia. O maior impacto foi registrado em abril, com redução do faturamento entre 75% e 100%. Também foi o mês com mais estabelecimentos fechados ou colocados em quarentena.
 
Com a realidade econômica alterada a cada semana, o setor turístico precisou mudar as medidas de mitigação para enfrentamento da crise. Até o final de março, o adiamento de investimentos, remarcação de serviços e oferta via delivery eram possíveis soluções para superar a queda no faturamento.
 
Quatro a cada dez empresas demitiram funcionários
 
Com o agravamento da crise em abril, entram na lista de medidas a demissão de funcionários e a abertura de empréstimos e novos financiamentos. “Por um lado, os bancos não oferecem crédito por falta de garantias no pagamento, por outro, a gente vê um atraso dos governos em ajudar especialmente as pequenas empresas”, alerta Marques.
 
A conta é simples. Se o faturamento cai, as demissões aumentam. A cada dez empresas ouvidas na pesquisa, quatro tiveram que demitir funcionários, principalmente nos setores de hospedagem e alimentação. “É uma realidade difícil. A sondagem mostra que as empresas menores têm um fôlego muito curto nos fluxos de caixa. Sabemos que a pandemia deve durar muito tempo, afetando diretamente o setor de turismo, que depende da mobilidade das pessoas”, comenta.
 
Se a recessão que atingiu as principais economias do mundo em 2008 fez com que o turismo internacional congelasse, o cenário de 2020 é ainda mais grave, de acordo com o professor Osiris. “Em 2008, tivemos uma crise que não afetou o setor de forma estrutural, como vemos hoje. Os atrativos turísticos estão estagnados em uma crise sem precedentes”, conclui.
FIEC
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