Stark Bank quer ser a “Brex brasileira” e aposta em cartão de crédito para startups

O empreendedor Rafael Stark era dono de uma empresa que desenvolvia aplicativos para grandes empresas. Até que um dia se deparou com um problema simples de um cliente: fazer uma API de transferência bancária.

Rafael Stark, CEO e fundador do Stark Bank

O serviço que parecia fácil, em especial para quem era engenheiro formado pelo Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), foi uma tremenda dor de cabeça. Todos os processos eram manuais e a integração tecnológica era bastante difícil. Foi assim que surgiu, em janeiro de 2019, a Stark Bank, um banco digital que começou desenvolvendo uma API para transferências bancárias.

A partir da API, que são interfaces de programação que servem para integrar um software ou uma plataforma baseada na Web, a Stark Bank desenvolveu diversos outros serviços. Depois da transferência bancária, Rafael criou uma API para pagamentos de boletos e outra para pagar impostos.

Dessa forma, o empreendedor conquistou mais de 200 clientes. Em especial startups, como Buser, Rappi, Ingresse, Kovi e Rebel. Mas também para grandes empresas, a exemplo da Colgate. “Devemos atingir a marca de R$ 10 bilhões transacionados em 2020”, disse Rafael Stark ao Portal NeoFeed.

Agora, a Stark Bank se prepara para seu novo projeto: ser um emissor de cartão de crédito para startups, seguindo o modelo da Brex, fintech fundada pelos brasileiros Henrique Dubugras e Pedro Franceschi no Vale do Silício, que é avaliada em US$ 2,6 bilhões.

Em janeiro deste ano, a Stark Bank recebeu US$ 2 milhões em um investimento liderado pela Iporanga Ventures, o mesmo fundo que apostou em Loggi, Olist e QueroEducação. Participaram da rodada a aceleradora Y Combinator, que também investiu na Brex, e o fundo do Vale do Silício Foundation Capital.

“O Rafael é um founder tecnicamente muito bom e existe uma indústria de pagamentos gigantesca que ainda é muito arcaica”, diz Leonardo Teixeira, sócio da Iporanga Ventures. “É uma dor que muitas empresas têm.”

Rafael conseguiu atrair também diversos empreendedores, que apostaram na startup como pessoa física. Entre eles estão o sócio do Softbank na América Latina, Paulo Passoni; o fundador da Buser, Marcelo Abritta; o fundador da Ingresse, Gabriel Benarros; e o ex-CEO da Rappi, Bruno Nardon.

O dinheiro captado será usado para reforçar o banco digital, mas também para tirar do papel essa estratégia. Rafael está em negociações avançadas com uma bandeira de cartão de crédito e pretende colocar o serviço no ar no segundo semestre de 2020.

“Depois de começar a ter relacionamento comercial com diversas empresas, é natural explorar outros ângulos financeiros para crescer”, afirma Teixeira, da Iporanga Ventures.

A ideia da Stark Bank é ter um cartão de crédito corporativo com milhagens e pontos. “Ele vai ser todo controlado por API”, diz Rafael, explicando que as startups poderão personalizar os limites por funcionários. “Se quiser colocar um limite de R$ 500 para transporte, por exemplo, é só customizar via a API.”

Um cartão de crédito corporativo para startups é uma demanda real do mercado brasileiro. Mas não será uma missão fácil conquistar esse mercado.

“A dificuldade de dar um cartão de crédito para startups é a mesma de dar crédito para a pequena empresa. Se fosse fácil, qualquer um fazia. E nem o Nubank fez ainda”, diz o fundador de uma startup, que já recebeu diversos aportes, mas demorou dois anos para conseguir um cartão de crédito corporativo.

Para conseguir o cartão de crédito, a startup terá de ter uma conta digital na Stark Bank. A ideia é usar esse saldo como uma forma para monitorar o limite e para fornecer o crédito, seguindo o modelo que ficou consagrado pela Brex.

“Mas uma coisa é fazer isso no Vale do Silício. Outra é tentar repetir a mesma estratégia no Brasil”, diz uma fonte do mercado de venture capital, que conhece o modelo da Brex.

A Brex conseguiu ganhar tração no mercado americano invertendo a lógica de fornecimento de crédito. Os bancos olham para o histórico da empresa. E, em geral, as startups não têm passado e muitas vezes não contam nem com uma fonte de receita.

Em vez de analisar o passado, a Brex observou o futuro e quais fundos de venture capital estavam investindo na startup. Elas podiam não ter receita, mas recebiam aportes e mantinham recursos em caixa.

Por meio de uma API, assim como a Stark Bank, a Brex tem acesso direto a conta bancária da startup e consegue em tempo real aumentar ou diminuir o limite de crédito, avaliando o saldo disponível. “É uma lógica simples, que ninguém tinha usado”, diz o investidor.

No Brasil, o primeiro desafio da Stark Bank é conseguir acesso às contas bancárias. Por enquanto, Rafael vai atrelar o limite do cartão de crédito a sua própria conta digital.

Mas o desenvolvimento do open banking, que estabelece a abertura dos dados de clientes, que são guardados a sete chaves pelos grandes bancos, pode ajudar nessa estratégia.

Rafael acredita que conseguirá repetir o modelo da Brex. Ele diz que está habituado a atender startups que receberam grandes aportes de fundos de venture capital.

Além disso, sua análise de crédito não se restringirá ao saldo da conta bancária. “Essas empresas usam a Stark Bank para fazer transferências, emitir boletos e pagar impostos”, afirma Rafael. “Vamos usar essas informações.”

Mas mesmo a Brex, que captou US$ 582 milhões de fundos como DST Global e Kleiner Perkins, enfrenta agora seus desafios. A companhia está altamente capitalizada, mas as startups estão sofrendo com a crise do coronavírus.

Os dois fundadores da Brex, Dubugras e Franceschi, estão se preparando para uma realidade mais dura, com muitos de seus principais clientes, como o Airbnb, a Outdoor Voices e a ClassPass, cortando custos e demitindo milhares de funcionários.

A startup já reduziu limites de crédito e está perdendo receita, segundo uma reportagem do site The Information, que cobre os bastidores do Vale do Silício. Essa atitude irritou alguns tomadores de crédito, porque não teriam sido avisados com antecedência.

Rafael afirma que a Stark Bank está capitalizada depois do aporte e que tem caixa para aguentar até dois anos. Apesar de não ser lucrativa, a startup gera receita e caminha para o equilíbrio financeiro. “Quero fazer algo que faça sentindo e ajude aos outros empreendedores”, diz.

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