Mansueto Almeida destaca a transformação do sistema de produção mundial

"A economia digital já está transformando todo o sistema de produção mundial e terá impactos positivos no Brasil e no resto do mundo", disse Almeida

A economia digital já está transformando todo o sistema de produção mundial
Foto: sunoresearch

Iniciaremos hoje uma série de entrevistas com Cearenses de destaque no cenário nacional. Hoje, ninguém menos que o economista Mansueto Almeida, secretário do Tesouro Nacional do Brasil e braço direito do Ministro da Economia, Dr. Paulo Guedes, para iniciar essa série de entrevistas. Mansueto foi entrevistado por veículos de comunicação do Ceará, entre eles o Economic News Brasil. Foram-lhe elaboradas 3 perguntas, acerca do tema economia digital, inteligência artificial, e moeda digital. A seguir, a entrevista concedida:

1) Como você acredita que os ganhos de produtividade advindos da economia digital e inteligência artificial interferirão nos preços, no emprego e, eventualmente, na inflação do nosso país?

A economia digital já está transformando todo o sistema de produção mundial e terá impactos positivos no Brasil e no resto do mundo. Isso pode aumentar a produtividade de diversos países. Por exemplo, hoje o desenho de um produto pode ser feito em um país e a ordem da produção ser direcionada para outro no mesmo dia, e a comercialização controlada de outro país. E, com impressão em 3D, produtos mais simples e até peças de automóveis podem ser impressas remotamente a partir de um comando em outro país.

A revolução digital é muito importante bem como a inteligência artificial que permite uma revolução em vários setores da economia e no setor público também. O planejamento público pode melhorar muito com o uso de inteligência artificial desde o melhor controle do trânsito nas cidades até no combate à sonegação e corrupção.

Inflação é muito mais um fenômeno monetário e, a principio, economia digital não deve ter relação com inflação. O crescimento da produtividade decorrente da economia digital pode reduzir preços e aumentar acesso a serviços e produtos que antes eram restritos a poucas pessoas.

Por fim, no caso do emprego, o impacto é incerto. A revolução digital pode exigir maior qualificação dos trabalhadores e aumentar o prêmio salarial para quem tem educação superior. Mas cabe ao governo por meio de politicas publicas ajudar nessa transição para que trabalhadores com pouca qualificação não sejam prejudicados.

2) Na sua opinião, qual a importância e o impacto da aprovação das reformas trabalhistas e a provável aprovação das reformas administrativa e tributária no setor da economia digital no Brasil (startups, empresas de tecnologia de ponta etc.)?

O modelo de contratação de mão de obra no Brasil era, em linhas gerais, o mesmo que havia sido definido pela nossa CLT na década de 1940. Era um modelo muito engessado baseado no modelo Fordista de produção da segunda metade do século XX: grandes empresas com número grande de trabalhadores em grandes fábricas. Mas o processo de produção mudou muito nos últimos 30 anos com o crescimento do comércio mundial e com a revolução digital.

O modelo antigo da nossa CLT não conseguia lidar com a economia digital do Sec. XXI, onde as empresas são menores, muitas delas sem empregados, rotatividade maior e requer horário de trabalho mais flexível. Em empresas de base tecnológica, alguns colaboradores preferem trabalhar de casa e, muitas vezes, ao longo da noite.

É claro que é importante garantir os direitos dos trabalhadores, mas a nova dinâmica do mercado do trabalho requer formas mais flexíveis de contratação. Acho que as mudanças de legislação do mercado de trabalho no Brasil nos últimos três anos ajudaram essa adaptação da nossa legislação trabalhista à nova economia. É um processo que não terminou.

No caso das reformas em discussão, a reforma tributária é importante para todos os setores produtivos e não apenas para a economia digital. O Brasil tem um sistema tributário muito complexo e diversos benefícios tributários. Isso tudo tem que ser racionalizado para reduzir o custo que todas as empresas tem de cumprir com suas obrigações tributárias.

Quando se trata da economia digital, essa complexidade do sistema tributário é ainda maior porque o setor está em continua evolução e as mudanças no sistema tributário são, necessariamente, mais lentas.

3) Você acredita na implementação da moeda digital na economia mundial?

Esse é um tema muito novo. Mas com o crescimento das moedas digitais precisaremos de regulamentações nos países. Ainda é incerto a velocidade desse processo e mesmo como será a regulação de moedas digitais. Por exemplo, o mundo vai evoluir para a convivência de várias moedas digitais ou apenas uma única? Como será a taxa de câmbio entre essas várias moedas? Não tenho a resposta para isso.

Esse é um tema muito novo. Acho que vários países precisam ainda entender e estudar melhor o assunto. Mas o progresso de moedas digitais, claramente, levará a necessidade de maior regulação até mesmo para evitar a proliferação de crimes digitais que, inclusive, já são comuns.

Mansueto Facundo de Almeida Jr. é formado em Economia pela Universidade Federal do Ceará, mestre em Economia pela Universidade de São Paulo (USP). É técnico de Planejamento e Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), tendo assumido os seguintes cargos em Brasília: coordenador-geral de Política Monetária e Financeira na Secretaria de Política Econômica no Ministério da Fazenda (1995-1997), assessor da Comissão de Desenvolvimento Regional e de Turismo do Senado Federal (2005-2006). De 2014 a 2016 foi consultor privado e retornou ao serviço público em 2016. Tem diversas publicações na área de finanças públicas e, recentemente, organizou dois livros: Retomada do crescimento – diagnóstico e propostas (Elsevier, 2017), com Fábio Giambiagi; e Finanças públicas: Da contabilidade criativa ao resgate da credibilidade (Record, 2016) com Felipe Salto.

Nossa próxima entrevista será com Machidovel Trigueiro Filho, atualmente Professor da Florida Internacional University (FIU), em Miami, nos Estados Unidos, e efetua também pesquisas como professor naquele país na Universidade de Stanford, na Califórnia, na área de Direito das Startups e IA. Trigueiro será o entrevistado de Jackson Pereira Jr. no Diálogo Empreendedor desta quarta-feira (11), às 20h, na TV Economic News Brasil.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui