Salário mais alto em uma moeda mais forte não costuma ser o principal atrativo da Europa para brasileiros da área de Tecnologia da Informação (TI). Há alguns casos em que o poder aquisitivo do trabalhador até diminui após a mudança, o que é compensado pela possibilidade de estar em um grande centro de inovação e, ali, se desenvolver profissionalmente.

Carreira

Pesquisa da consultoria Boston Consulting Group (BCG), feita em parceria com a empresa de soluções para recrutamento The Network, mostra que, para os brasileiros de TI, o fator mais valorizado na hora de escolher um emprego é o desenvolvimento da carreira. O salário aparece na oitava posição na lista de prioridades dos brasileiros. Na média global, está em quinto lugar.

O paulista Daniel Rodrigues da Costa Filho, de 37 anos, tinha vontade de mudar para a Europa desde 2010. “Queria participar do desenvolvimento da tecnologia”, diz. Há três anos, trocou São Paulo por Berlim, mesmo perdendo poder aquisitivo. “Minha impressão era de que, na minha área, tudo acontecia fora do Brasil.”

Serviços públicos e Oportunidades

Na Noruega há pouco mais de um ano e após sete anos na Suécia, a engenheira Andressa Kalil, de 37 anos, destaca itens como segurança, bons serviços públicos e oportunidades de trabalho como fatores preponderantes que a levaram para a Europa. “As empresas que lideram na área de TI estão fora (do País), e é nelas em que se tem mais possibilidades para aprender. O Brasil corre muito atrás do que já está desenvolvido.”

Igualdade de gênero

A cearense Josiane Ferreira, que está há quatro anos em Estocolmo, lembra ainda que, na Suécia, há uma grande preocupação com a igualdade de gênero. “No Brasil, quando se trabalha com TI, é comum ser a única mulher na equipe. Aqui, a questão de gênero é uma das prioridades das empresas.”

Mudança

O levantamento do BCG indica ainda que 87% dos brasileiros de TI estão dispostos a mudar de país para trabalhar. O número é maior que o registrado entre brasileiros de outras áreas (73%) e da média global de trabalhadores de TI (67%).

Diante dessa predisposição dos trabalhadores para deixar o Brasil, as empresas brasileiras precisam fidelizar seus funcionários, oferecendo treinamentos e ensinando a cultura da companhia, diz Luiz Comazzetto, vice-presidente e sócio da consultoria de recrutamento Fesa. “Se você não cuidar do funcionário como um craque, ele te larga no primeiro momento.”

As empresas precisam também se adaptar ao modo de remunerar e de garantir qualidade de vida aos empregados, ainda segundo o consultor. Liberar os funcionários para trabalharem de casa, com flexibilidade de horário, é essencial, diz. Contratar os trabalhadores por projetos, permitindo que atuem para mais de uma empresa, também é uma possibilidade. “Hoje, o pessoal de TI escolhe onde vai trabalhar. A única forma de segurar essa galera é se aproximar do que as empresas de fora oferecem”, acrescenta.

Segundo Comazzetto, há polos no Brasil em que as empresas estão mais avançadas nessa transformação, como Recife, Florianópolis, Campinas (SP) e Pelotas (RS). “Nesses locais, as companhias já entenderam as mudanças. Você pega um trabalhador do Recife, que vai para a praia antes de trabalhar e tem boa qualidade de vida, dificilmente ele vai querer sair de lá.”

O professor de Liderança e Pessoas da Fundação Dom Cabral, Paulo Almeida, destaca que, apesar das dificuldades atuais, o profissional de TI deve estar atento ao potencial de crescimento de mercado do Brasil. “Na Europa, as carreiras costumam ser mais estagnadas. O Brasil é um país continental, com muito potencial”.

(Estadão)

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