EUA COMPLETOU NESSA SEGUNDA-FEIRA O MAIS LONGO PERÍODO DE CRESCIMENTO DA HISTÓRIA



Depois de terem afundado em 2008 em sua pior crise econômica desde a Grande Depressão dos anos 30, os Estados Unidos comemoram nesta segunda-feira dez anos de crescimento. Não foi uma recuperação tranquila, com o Produto Interno Bruto (PIB) encolhendo 1% nos últimos trimestres de 2010 e de 2013 e 0,1% no segundo trimestre de 2011.

Mas o país saiu da crise provocada pela falência do banco Lehman Brothers , em setembro de 2008, continua a ser a maior economia do mundo, cresceu 2,9% no ano passado, viu desabar o desemprego (de 9,9% em 2009 para 3,9% em 2018) e desfruta de uma verdadeira explosão no mercado de ações.

Embora os números sejam positivos, analistas dentro e fora do país adotam um tom cauteloso, especialmente diante da guerra comercial com a China . Em junho, uma pesquisa feita pela Bloomberg apontava que 30% dos economistas preveem algum nível de recessão num futuro próximo.

Setores muito dependentes do comércio exterior já começam a sentir a pressão, com a geração de emprego em maio deste ano caindo para 75 mil novos postos, ainda um número positivo, mas com um forte declínio em relação aos meses anteriores.

"BONANÇA PERFEITA"

Mas como foi possível para o país, epicentro da crise global de 2008, dar essa volta por cima? Para Carlos Langoni , ex-presidente do Banco Central e diretor do Centro de Economia Mundial da FGV, a explicação é a conjunção de fatores que ele apelida de “bonança perfeita”, uma “tempestade perfeita” do bem:

"Primeiramente, a economia 4.0, baseada na inovação tecnológica, nasceu e continua baseada nos EUA. Em segundo lugar, houve a revolução do shale gas [um combustível extraído de formações rochosas], que barateou a energia e deu competitividade a setores que estavam estagnados.

Paralelamente, a inflação baixa fez com que as medidas que o Fed [Federal Reserve, o BC dos EUA] tomou contra a crise se tornassem permanentes, com taxas de juros baixíssimas (entre 2,25% e 2,5% ao ano)."

Langoni ressalta ainda a reforma fiscal feita por Donald Trump , cortando impostos das empresas, e o fato de os EUA terem um ambiente de negócios voltado para o livre mercado.

"O Estado lá é de fato mínimo, praticamente sem legislação trabalhista e com incentivos ao investimento. O resultado é esse cenário, que já não é mais uma recuperação, e sim um ciclo longo de crescimento."

DESIGUALDADE E CONCENTRAÇÃO

Mas nem tudo é perfeito nessa bonança. Segundo Luiz Carlos Prado , professor do Instituto de Economia da UFRJ, é preciso qualificar a recuperação americana nos últimos dez anos. Ao contrário do crescimento registrado na década de 90, o atual ciclo não é uniforme nem se reflete generalizadamente na sociedade:

" A retomada vigorosa é mais recente, de 2014 para cá. E ela não se reflete numa recuperação proporcional da qualidade de vida e na renda da população. Há uma sistemática concentração de renda no país."

Prado lembra que a retomada do emprego, por exemplo, teve como alvo os profissionais de maior qualificação, especialmente devido à prevalência das empresas de tecnologia no perfil de crescimento.

Embora o desemprego nacional já tivesse recuado para 4,7% em 2016, os trabalhadores de média qualificação, especialmente de indústrias tradicionais, ficaram à margem do processo. Para analistas, esse foi um dos motivos para, naquele ano, Donald Trump ter vencido em estados industriais tradicionalmente democratas, como Michigan, Wisconsin e Iowa:

"Os trabalhadores da indústria no rust belt [cinturão da ferrugem] se consideravam os americanos típicos, uma classe média estável. Mas a indústria migrou para outros países, especialmente a China.

As vagas que surgem são para profissionais altamente qualificados ou pessoas de baixa renda, empregos de má qualificação e remuneração. Esse 'americano típico' pode até se recolocar profissionalmente, mas sem melhora na qualidade de vida."

AÇÕES VÃO BEM, OBRIGADO

Quem não pode reclamar da retomada é o mercado de ações. O índice S&P-500, que reúne papéis negociados na Bolsa de Nova York e na Nasdaq, encerrou o primeiro semestre de 2019 a 2.941 pontos, mais de quatro vezes seu nível mais baixo durante a recessão, 676 pontos, registrados em 9 de março de 2009, e quase o dobro do recorde pré-crise, 1.565 pontos em 9 de outubro de 2007.

O problema é que mesmo a recuperação do mercado acionário reflete a concentração da economia na parcela mais rica da população. Segundo uma pesquisa do Gallup divulgada em 2017, 54% dos americanos tinham ações, em comparação a 65% de antes da recessão.

E a maioria desses investidores o faz por meio de fundos de pensão, e não diretamente. A forte queda no mercado ao longo de 2008 e do início de 2009 permitiu aos que tinham dinheiro comprar papéis a preços muito baixos, concentrando o mercado.

O PARADOXO DO PROTECIONISMO

A pergunta na cabeça de todos que lidam com a economia americana é quanto tempo esse ciclo ainda pode durar, especialmente diante da postura do presidente Donald Trump de protecionismo e guerra comercial com a China. Carlos Langoni vê nesse cenário um risco e um paradoxo.

"Se essa postura protecionista tivesse sido adotada há cinco ou seis anos, é possível que os EUA não estivessem vivendo esse longo crescimento" diz o ex-presidente do BC. "A economia americana é uma grande beneficiária da globalização. Suas empresas de tecnologia, que geram os empregos mais qualificados, produzem no mundo todo."

Já Luiz Carlos Prado é mais otimista e acredita que eventuais erros de Trump podem não ter um peso tão grande.

"Protecionismo sempre acarreta perdas e ganhos. Se Trump conseguir trazer indústrias de volta, pode até mesmo obter ganhos políticos."

(Época)



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