Enquanto WhatsApp privilegia a privacidade das mensagens, Telegram opera ‘na nuvem’.




O aplicativo Telegram, envolvido no vazamento das mensagens de procuradores da Lava Jato, é considerado por muitas pessoas uma alternativa mais segura ao seu principal concorrente. Não é possível saber, mas pode até ter sido esse pensamento que levou as autoridades a utilizarem o Telegram em detrimento do app mais popular do Brasil.

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Essa decisão, porém, não tem muitos fundamentos na realidade. Especialmente quando o assunto é a privacidade de mensagens trocadas em conversas antigas, o WhatsApp é, hoje, muito mais seguro do que o Telegram.

Dois ângulos e dois modelos

Quando se fala em segurança de um aplicativo, há dois ângulos principais para serem analisados. O primeiro ângulo é a arquitetura ou desenho do software, que é a maneira como ele foi projetado para funcionar. Esse modelo define as funcionalidades que o aplicativo terá e, com isso, as concessões em termos de segurança. Deixar o programa mais seguro pode impossibilitar certas funções e conveniências.

O WhatsApp e o Telegram empregam dois modelos completamente distintos. O WhatsApp armazena todas as mensagens trocadas apenas em um telefone e não permite que outros aparelhos sejam ativados com o mesmo número. Por esse motivo, todas as mensagens do WhatsApp podem ser cifradas com a chave de segurança exclusiva do celular.

‘Teu passado te condena?’

A noção de que o Telegram é mais seguro do que o WhatsApp nasceu graças ao passado desastroso do aplicativo que hoje pertence ao Facebook.

No início, o WhatsApp não tinha quase nenhum recurso de segurança. Enquanto o Telegram avançava com criptografia de comunicação básica e chats secretos para impedir até grampos eletrônicos sofisticados, o WhatsApp podia ser grampeado em qualquer rede Wi-Fi com um programa simples.

No entanto, os aplicativos evoluíram por caminhos incomparáveis ao longo dos anos.


O WhatsApp fez escolhas que favoreceram pesadamente a privacidade das mensagens, reduzindo inclusive a capacidade dos administradores do app de controlar spam e fraudes. O Telegram, embora tivesse sido pioneiro nos chats secretos criptografados, preferiu a conveniência e manteve esses chats como uma opção a mais, não os adotando como canal regular para a troca de mensagens.

O WhatsApp se afastou dos recursos em “nuvem”, recorrendo ao armazenamento no telefone e mantendo seu código fechado sob o argumento de que o usuário não precisa confiar no WhatsApp ou no Facebook, porque o aplicativo não guarda as conversas.

A tecnologia de embaralhamento de mensagens do WhatsApp foi copiada do aplicativo Signal, considerado por muitos o melhor da categoria (e que deve ser o app de preferência para quem realmente quer privacidade nas comunicações).

O Telegram avançou para outras plataformas, permitindo seu uso em vários dispositivos e oferecendo armazenamento centralizado grátis para conversas. Isso facilita a migração e a conveniência, mas também expõe mais as conversas antigas no caso de uma invasão.

É um pouco injusto dizer que o WhatsApp é “mais seguro” do que o Telegram. O WhatsApp não é capaz de imitar as funcionalidades do Telegram, porque trabalha de uma maneira muito diferente e não temos acesso ao código fonte para atestar sua qualidade. Porém, é inegável que o modelo do WhatsApp favorece muito mais a privacidade das mensagens, obrigando invasores a se esforçarem mais para consegui-las.

Esse desafio extra pode ser determinante para barrar certos espiões, especialmente quando todo cuidado é pouco — como é o caso de autoridades e governantes.



(G1)

Sistema RPBrasil de Comunicação

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